A editora Paula Anacaona e os escritores Raimundo Carrero, Marcelino Freire, Edyr Augusto e Paulo Lins em Saint-Malo .

A editora Paula Anacaona e os escritores Raimundo Carrero, Marcelino Freire, Edyr Augusto e Paulo Lins em Saint-Malo .

Fonte:
Adriana Brandão/RFI
Adriana Brandão

O Brasil é, ao lado da China e de países mediterrâneos, um dos temas do Festival Internacional do Livro e do Filme de Saint-Malo, aberto neste sábado (7). Esta 25ª edição do «Étonnants Voyageurs» (Viajantes surpreendentes) reúne na cidade portuária da Bretanha francesa 250 escritores de mais de 40 países e propõe a descoberta de um mundo em transformação.

 

Onze autores brasileiros, todos com obras já traduzidas na França, vieram a Saint-Malo para falar do Brasil de hoje. São escritores de várias regiões, mas que têm como traço comum uma literatura urbana e violenta.

O capitão dessa seleção literária brasileira escolhido pelos organizadores do festival é Paulo Lins. O autor de «Cidade de Deus» foi homenageado esta manhã em Saint-Malo. Paulo Lins é apontado como precursor de um gênro que simboliza a literatura brasileira atual. «Cidade de Deus» foi publicado em 1997 e depois adaptado para o cinema, em 2002, por Fernando Meirelles. O romance, sobre a violência no Rio de Janeiro e narrado por um morador da favela, é considerado um divisor de águas no cenário literário nacional.

Em entrevista à RFI, Paulo Lins lembra que não foi o primeiro a tratar do tema, que a questão da violência já era debatida no país, mas fica satisfeito em ter ampliado com o sucesso do livro o debate sobre o racismo, a disgualdade de renda, a violência policial. «Isso é importantíssimo para o Brasil. Ainda temos uma política muito atrasada, muito arcaica. Temos muita corrupção, políticos que legislam em causa própria», lamenta o escritor.

Moscou, periferia de Belém

A violência crua é um traço predominante da escrita enxuta e cortande do paraense Edyr Augusto. Pouco conhecido dos leitores do sul e sudeste do Brasil, Edyr tem vários livros publicados no Brasil, todos se passam em Belém, metrópole de 2 milhões de habitantes.

Dois de seus romances, «Os Éguas» e «Moscou», já foram traduzidos e publicados na França pela Asphalte. Moscou, que acaba de chegar às livrarias francesas, narra a violência sem culpa de uma turma de adolescente na ilha de Mosqueiro, na periferia de Belém, chamada de Moscou pelos habitantes. O romance foi considerado uma espécie de «Laranja Mecânica» brasileira. Edyr Augusto diz que quer com sua literatura «evidenciar os problemas enfrentados por sua cidade e impactar os leitores ».

Entre o mundo urbano e rural

A literatura do pernambucano Marcelino Freire faz o elo entre o mundo urbano e rural, entre São Paulo e o nordeste. O escritor tem vários livros de contos e seu único romance, «Nossos Ossos», acaba de ser traduzido para o francês pela editora Anacaona. O livro toma partido das minorias, no caso os homossexuais, fala do choque de culturas, da perda de raízes. «Nossos Ossos» é um requiem em forma de viagem de retorno, que « também fala de solidariedade e simboliza a história bem recente do Brasil », ressalta Marcelino Freire.

Além dos três escritores, também participam do Festival Internacional do Livro e do Filme Étonnants Voyageurs : João Almino, Patricia Melo, Luiz Ruffato, Raimundo Carrero, Bernardo Carvalho, Ana Paula Maia, João Paulo Cuenca e André Diniz.

festival literário de Saint-Malo também dará destaque para os eternos embaixadores do Brasil no estrangeiro, a música e o futebol, temas de mesas redondas neste domingo (8).

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