3º Bienal Brasil do Livro e da Leitura chega a Brasília no fim do mês | Finíssimo – Outubro Rosa – Cuide-se! Ame-se!

Livro mostra a beleza do concreto

Seu amigo nas férias

Chegou o verão e com ele as férias.

Um amigo inseparável que pode estar com você naqueles momentos de relaxamento, durante a viagem quando você está como passageiro, antes de dormir e onde você quiser é o livro.

Suas férias se tornam muito mais gostosas quando você leva um livro, mesmo que não vá viajar para nenhum lugar, por a leitura em dia é um prazer incrível. As boas lembranças que temos de férias inesquecíveis muitas vezes são mais intensas quando temos nelas um livro especial incluído.

Vamos lá, escolha quem serão os seus parceiros de férias e aproveite. Seja ele físico ou virtual, sempre é bom ter um amigo ao lado.

Boas férias.

 

 

Manhã de Setembro – Luigi Zoja e Donald Williams – Axis Mundi Editora

ÁNIMA – O feminino no homem

Ánima significa “alma” em latim. É o termo que o psicólogo Carl Gustav Jung escolheu para designar a componente feminina que existe na psique masculina. Ayesha, personagem central do livro Ela, de Rider Haggard, Editora Axis Mundi,  era considerada por Jung uma das melhores metáforas literárias da ánima

Por: Luis Pellegrini

“Deixe a ánima ir à frente. Basta seguir atrás, pelo caminho que ela traça”, costuma dizer Roberto Gambini, psicólogo junguiano e cientista social que vive e trabalha em São Paulo. Seu conselho ecoa na minha cabeça quando começo a escrever este artigo para tratar de dois temas: a questão da ánima – a componente feminina que existe na psique masculina, segundo a definição do psicólogo Carl Jung -, e o lançamento, em português, de um livro importante, o romance de aventuras Ela, de Henry Rider Haggard, pela editora Axis Mundi. Por uma dessas coincidências felizes, Roberto Gambini, que vive e trabalha em São Paulo, é também o autor do prefácio para esta edição brasileira de Ela. Que tem uma coisa a ver com outra? Está explicado no texto desse prefácio de Gambini que transcrevemos mais abaixo. Mas posso adiantar dizendo que Ela era um dos livros de cabeceira de Carl Gustav Jung. Ele via no fascinante personagem central do romance – uma belíssima mulher de nome Ayesha, rainha branca de um povo negro no coração da África -, uma excelente descrição metafórica da ánima. O “Ela” do título (She, no original inglês), refere-se exatamente a esse personagem.

 

A história se passa na África, transmitindo todo o fascínio que Rider Haggard encontrava em sua paisagem, animais selvagens, sociedade tribal e passado misterioso. O romance se desenvolve em ambientes exóticos, com tesouros (materiais e imateriais), aventureiros, seres imortais, magia negra e cidades perdidas, mesclando aventura com o fantástico. Narra a saga de um pequeno grupo de três ingleses que se embrenham na África Oriental, até chegarem ao reino perdido governado por Ayesha. O encontro com essa estranha e poderosa mulher, quase uma deusa, dotada de capacidades incomuns e de semi-imortalidade, exerce fortíssimo efeito transformador nesses homens. Depois de encontrar Ayesha e, cada um a seu modo, apaixonarem-se por ela, eles nunca mais serão os mesmos.

Para Jung, toda a aventura de Ela espelha, simbolicamente, o encontro necessário que todo homem deve ter com a sua própria “ánima”, a sua alma,  para poder realmente trilhar com êxito o caminho da “individuação” – o encontro consigo mesmo, com o seu Self, segundo Jung.

Toda discussão séria sobre a questão da ánima, bem como toda contribuição válida para o seu estudo – como é o caso do lançamento de Ela -, é coisa muito bem vinda nos dias de hoje. Vivemos agora, mais do que nunca, a necessidade urgente de redefinições importantes, como aquelas que dizem respeito ao sentido real do masculino e do feminino e as das identidades de homem e de mulher no mundo contemporâneo. O que é ser homem e o que é ser mulher hoje e daqui para a frente? Quais são as novas imagens de homem e de mulher que correspondem ao atual momento histórico? Quais são os seus reais papéis no contexto constantemente mutável da nossa sociedade multicultural? São perguntas que esperam respostas mais claras.

Ninguém consegue encontrar a si mesmo, nem descobrir qual é a sua função no mundo, enquanto não definir pelo menos em grau razoável os traços reais da sua identidade. Todo esse processo de autodescoberta passa, necessariamente, pela conscientização e pelo aprendizado das nossas dualidades internas: a da ánima, a componente feminina que existe na psique do homem; e a do ánimus, a componente masculina que existe na psique da mulher. Por que, como dizia Carl Jung, “o homem é masculino por fora e feminino por dentro; a mulher é feminina por fora e masculina por dentro”.

Capa da edição brasileira de 'Ela', de Rider Haggard, Axis Mundi Editora

Capa da edição brasileira de ‘Ela’, de Rider Haggard, Axis Mundi Editora (R$35,00)

 

Por outro lado, se uma das missões psicológicas e espirituais fundamentais do homem e da mulher contemporâneos é justamente aquela de estabelecer o contato e o diálogo entre o ego (consciência inferior ou mental) e o Self (consciência superior ou espiritual), uma correta avaliação da natureza e da ação da ánima e do ánimus é fundamental. Pela simples razão de que são justamente eles, ánima e ánimus, respectivamente para o homem e para a mulher, as entidades da psique humana que exercem uma função mediadora entre o ego e o Self.

Por causa desse seu papel crucial no processo de florescimento da auto-consciência, que Jung chamava de “individuação”, a ánima, em geral representada por personagens femininos extraordinários, tem sido desde sempre uma preocupação constante dos artistas, escritores e poetas. Eles, provavelmente, como o Rider Haggard de Ela, muitas vezes não criam tais personagens de modo objetivo e consciente. Ao contrário, são essas personagens que, existindo dentro dos autores e artistas, clamam e gritam para sair à luz e ganhar o mundo, obrigando-os a, inconscientemente, expressá-las através da sua arte ou da sua escrita.

Por outro lado, todas as tradições de fundo espiritual reconhecem a importância da ánima e do ánimus no contexto das várias situações iniciáticas. Na tradição das artes mágicas, por exemplo, o homem pode vender sua alma (ánima) ao diabo para obter em troca aquilo que desejar nesta terra. Sob múltiplas formas, formalmente diversas mas essencialmente iguais nas várias culturas, é o pacto de Fausto com Mefistófeles. Mas uma lenda alemã acrescenta que o homem que tiver vendido sua alma já não possui sombra. Não significará isso uma forma de dizer, simbolicamente, que o homem que assim procede perde toda existência própria?  A sombra seria, nesse caso, o símbolo material da alma assim abandonada, que pertence doravante ao mundo das trevas e que já não pode se manifestar sob a luz do sol. Ausência de sombra: sinal de que já não há nem luz nem consistência real naquele homem que foi capaz de vender a própria alma.

Mas este não é certamente o caso dos heróis masculinos de Ela. Ao encontrar sua alma projetada na figura mítica de Ayesha, eles não a vendem, e sim a integram. E descobrem com Ayesha que a alma do homem pode sim ser um anjo de bondade e sabedoria. Mas pode também ser um demônio impiedoso e irracional.

Mais informação: www.axismundieditora.com.br

Ridder Haggard, o autor de 'Ela'

Ridder Haggard, o autor de ‘Ela’

 

ELA, UM RETRATO DA ANIMA

Prefácio de Roberto Gambini, analista pelo Instituto C. G. Jung de Zurique, para a edição brasileira de Ela, de Rider Haggard.

Depois de anos de experiência como funcionário da Coroa britânica na África do Sul, o jovem Henry Rider Haggard, aos 31 anos – época em que deve ter-se firmado seu contato com a fonte interior de criatividade – escreveu Ela. Corria o ano de 1887 e Carl Gustav Jung tinha apenas doze anos, mal começava a ler. Alguma relação entre os dois fatos? Sim, e muito interessante. Este livro que você está prestes a ler fez uma bela e duradoura impressão na mente intuitiva de Jung (que já o cita no início do século), que nele encontrou uma excelente descrição para o fugidio embora potentíssimo fenômeno psíquico a que deu mais tarde o nome de ánima. Temos aqui portanto não apenas uma boa história, dessas que transcritas hoje para a linguagem cinematográfica encantam multidões, mas um documento histórico muito saboroso para se pesquisar as fontes de idéias e imagens – e foram tantas – nas quais Jung encontrava paralelos para contextualizar e amplificar seus inúmeros insights. Só isso já basta (mas há também o prazer da leitura/aventura) para justificar esta nova edição de Ela, na inspirada e competentíssima versão de Merle Scoss. Haggard escreveu muitas outras histórias, mais de 50 ao todo – As minas do rei Salomão (1885), Allan Quatermain (1887) eSwallow (1889) já são conhecidas do grande público graças ao cinema – mas nenhuma terá jamais a importância e o charme de Ela devido justamente à impressão que causou em Jung.

Valeria a pena reproduzir aqui as próprias palavras do pensador suíço a respeito deste livro para podermos avaliar com alguma precisão o que acabo de dizer. No Volume 9.I das Obras Completas, num ensaio intitulado “A Respeito dos Arquétipos e do Conceito de Anima” (1954). Jung diz o seguinte: “A ánima (…) não escapou à atenção dos poetas. Há excelentes descrições dela, que ao mesmo tempo nos falam do conteúdo simbólico em que o arquétipo usualmente se inscreve. Em primeiro lugar cito as novelas de Rider Haggard ElaO Retorno de Ela e A Filha da Sabedoria. Alguns anos depois desse ensaio e certamente mais de meio século após a leitura da novela (em 1959, já no fim de sua vida), Jung escreve num prefácio a um livro de uma sua discípula: “Rider Haggard é sem dúvida o expoente clássico do tema da ánima, muito embora este já fosse familiar aos humanistas do Renascimento” (especialmente Francesco Colonna). Jung apreciava o fato de não haver na história de Haggard nenhuma pretensão psicologizante, que acaba sempre por contaminar o relato com as idiossincrasias do autor. Aí temos portanto um critério valorativo para se detectar a importância de uma obra enquanto registro da fenomenologia do inconsciente coletivo: o registro sem mediações desnecessárias da fantasia que irrompe na mente do autor conta mais do que a forma e o estilo utilizados para captá-la.

Aí temos uma clara postura junguiana frente às obras literárias. Num ensaio de 1950 sobre Psicologia e Literatura, que consta do volume 15 das Obras Completas, Jung considera que o romance psicológico é menos interessante para o psicólogo do que aquele que não tem nenhuma pretensão dessa ordem – e os exemplos que cita são Ela, as histórias de detetive de Conan Doyle e Moby Dick, de Melville. Em suas palavras: “Uma narrativa excitante desprovida de intenções psicológicas é o que acima de tudo interessa ao psicólogo. Uma história desse tipo é construída sobre um pano de fundo composto por pressupostos psicológicos não verbalizados, e quanto mais o autor for inconsciente deles, mais esse fundo se revela em toda a sua pureza ao olhar discriminador”.

Essa mesma posição é retomada e reforçada no já citado prefácio de 1959, quando Jung lembra que a grandeza e importância de um tema como o da ánima não dependem da forma como é apresentado. E recomenda: “Aquele que desejar ter um insight sobre sua própria ánima encontrará um bom material de reflexão em Ela, justamente por causa da simplicidade e ingenuidade da apresentação, totalmente desprovida de qualquer ‘intenção’ psicológica” (volume 16).

A ánima é o componente feminino instalado no interior da psique masculina e a ela corresponde uma imagem que a expressa. Segundo Jung, essa imagem de mulher que os homens carregam na mente é supra-individual, ou seja, possui características comuns em homens distintos, mesmo de épocas ou culturas diversas. Há um tipo definido de mulher que sempre reaparece e Jung tomou a si a tarefa de descrever alguns de seus traços básicos, servindo-se para tanto de suas próprias vivências da ánima, daquelas de seus pacientes e dos registros da literatura, da pintura, da mitologia e do folclore. Num ensaio de 1927, incluído no décimo volume das Obras (“A Mente e a Terra”), Jung novamente valoriza nossa história: “Esses tipos costumam ser descritos com muita precisão, com todas as suas qualidades humanas e demoníacas, em romances fantásticos como Ela e A Filha da Sabedoria, de Rider Haggard”.

 

Ursula Andress é a protagonista de uma célebre versão de 'Ela' para o cinema

Ursula Andress é a protagonista de uma célebre versão de ‘Ela’ para o cinema

 

Jung sabia muito bem que esse “tipo” que expressa a ánima é um complexo de opostos. Há uma passagem importante num texto de 1951 (volume 9.1. “Aspectos Psicológicos da Koré”), onde se percebe claramente a marca deixada pela amoral, misteriosa e atemporal Ayesha” :…a ánima é bipolar e portanto pode aparecer como positiva num momento e negativa no outro; ora jovem, ora velha; ora mãe, ora donzela; ora uma fada boa, ora uma bruxa; ora santa, ora prostituta. Além dessa ambivalência, a ánima também tem conexões ‘ocultas’ com ‘mistérios’, com o mundo da escuridão em geral, e por essa razão costuma ter uma aura religiosa. Sempre que emerge com algum grau de clareza, ela se relaciona de modo peculiar ao tempo: via de regra ela é mais ou menos imortal, por estar fora do tempo. Os escritores que tentaram evocar essa figura nunca deixaram de acentuar a peculiaridade da ánima nesse aspecto. Refiro-me à descrição clássica em Ela, de Rider Haggard. Nessas obras todas, a ánima está fora do tempo assim como o conhecemos e por conseguinte é extremamente  velha ou um ser que pertence a uma outra ordem de coisas”.

Costuma-se falar poeticamente da ánima como fonte de sensibilidade e fruição de beleza, mas Jung nunca deixou de apontar para seu lado perigoso, até mesmo letal, imoral, desagradável e inadequado, quando a força desse arquétipo se sobrepõe e invade o ego masculino. Nessa condição, um homem se comporta emocionalmente como uma caricatura de mulher, ou se dissolve sob o peso de sua própria fraqueza. Essa questão mereceu bastante atenção por parte de Jung no decorrer  de sua vida e de seu trabalho terapêutico. Num texto de 1934, “Os Arquétipos do Inconsciente Coletivo” (volume 9.1), ele chama a ánima de “serpente no paraíso do homem inofensivo e bem-intencionado. Como o que ela quer é a vida, ela quer tanto o bem quanto o mal”. E para descrever essa assombrosa entidade e suas peculiaridades novamente Jung recorre a nosso autor, quando diz: “A ánima acredita no ‘belo e bom’, conceito primitivo anterior à descoberta do conflito entre estética e moral. A ánima é conservadora e se apega a métodos de uma antiga humanidade. Ela gosta de aparecer num clima histórico, com predileção pela Grécia e Egito. A esse respeito, mencionaríamos as clássicas histórias da ánima escritas por Rider Haggard e Pierre Benoit”. Jung citava muito em latim e em seus diários costumava usar a caligrafia gótica, bem ao gosto de sua ánima…

Para encerrar essas citações, examinemos o capítulo sobre ánima e ánimus num dos textos mais didáticos de Jung, “As Relações entre o Ego e o Inconsciente” (sétimo volume das Obras Completas), onde talvez pela primeira vez – já que a versão inicial desse ensaio é de 1916 – é valorizada a descrição que Rider Haggard  faz da invisibilidade, da imortalidade e do caráter histórico da ánima. Nesse estudo, Jung considera que a femininidade da alma masculina se constitui a partir de três fontes: 1) a mulher, 2) a vida emocional do homem e 3) a imagem de mulher que reside em seu inconsciente. A mulher influencia a psicologia do homem justamente por ser diferente, informando-o de coisas que ele não percebe: “ela pode ser sua inspiração; sua capacidade intuitiva, frequentemente superior à do homem, pode servir-lhe e seu sentimento, sempre voltado para o que é pessoal, pode mostrar-lhe caminhos que seu sentimento menos personalizado não teria jamais descoberto”. Quanto à segunda fonte, Jung considera que a femininidade da vida emocional de um homem em geral é reprimida e se acumula no inconsciente. Esses traços não vividos se sobrepõem então à imagem de mulher, influenciando assim a maneira pela qual um homem apreende a realidade da mulher exterior. Essa inconsciência da própria ánima faz com que um homem, ao se casar, escolha uma mulher que corresponda à sua própria femininidade inconsciente, que possa receber a projeção de sua alma, da qual seria um espelho – o que também pode levar um homem a se casar com suas piores fraquezas. Nesse contexto, a novela de Haggard auxiliava Jung a expressar a imperiosidade exercida pelo feminino inconsciente na psicologia masculina, quando diz: “qualquer homem com um mínimo de insight psicológico saberá o que Rider Haggard quis dizer com ‘Ela -que-deve-ser-obedecida’, e reconhecerá o ponto tocado por Benoit em sua descrição de Antinéia (em L’Atlantide). Além disso, ele sabe de imediato qual tipo de mulher encarna esse misterioso fator, do qual tem uma premonição tão vívida” – e aqui entramos no terreno da projeção da ánima e da psicologia das mulheres que se confundem com ela.

Essas considerações, todas extraídas de várias passagens da obra de Jung, devem servir para que o leitor se dê conta da importância histórica deste livro e seja estimulado a fazer suas próprias reflexões a respeito dessa impressionante figura, aquela que diz: não é pela força que governo. É pelo terror. A imaginação sustenta meu império”.

E que império, e que imaginação! Enquanto não confronta sua Ánima e não a percebe em sua luz e sua sombra como um imperativo invisível que o leva para onde quer e onde não quer ir, um homem não é totalmente dono de si e não pode jamais dizer que controla seu destino.

Lindo trabalho em 3D

Pau-Brasil. Metáfora vegetal de um país

Como crianças inocentes, nossos índios desde os anos da Descoberta trocaram imensas quantidades de pau-brasil por bugigangas trazidas por europeus, sobretudo franceses e portugueses

Por: Luis Pellegrini (Revista Oásis – www.brasil247.com)

Hoje, quem quer conhecer a árvore que deu nome ao país precisa visitar algum jardim botânico, sobretudo os de São Paulo e do Rio de Janeiro, onde cientistas apaixonados cuidam com carinho de uma ou duas dezenas de espécimes frondosos que formam dois pequenos bosques nas encostas de colinas suaves. Fora dos jardins botânicos, só mesmo embrenhando-se em algum raro trecho de Mata Atlântica remanescente no leste e no nordeste. Nesses pedaços de floresta, com muita sorte e a ajuda de um mateiro experiente, pode-se encontrar ainda um ou outro exemplar selvagem de pau-brasil. A maior parte deles exemplares velhos, condenados ao desaparecimento. Sua reprodução tornou-se extremamente difícil por causa da exiguidade do seu número – o que impede uma boa genética de polinização – bem como, segundo foi descoberto, pelo quase total desaparecimento de uma pequena abelha especializada que, indo de flor em flor, e de árvore em árvore, é ferramenta indispensável para que essa mesma polinização ocorra.

 

No centro da foto, um belo exemplar de pau-brasil. Jardim Botânico de São Paulo

No centro da foto, um belo exemplar de pau-brasil. Jardim Botânico de São Paulo

 

Em 1500, no entanto, quando os europeus aqui chegaram, o pau-brasil era uma das árvores mais abundantes da Mata Atlântica. Seu número podia ser contado em dezenas de milhões. Mas ele logo começou a diminuir: uma derrubada predatória teve início, e nunca mais parou até o século 20 avançado, quando a extrema escassez desse vegetal inviabilizou sua exploração econômica.

 

Capa do livro 'Pau-Brasil', vários autores, com organização de Eduardo Bueno, Axis Mundi Editora

Capa do livro ‘Pau-Brasil’, vários autores, com organização de Eduardo Bueno, Axis Mundi Editora

 

O livro definitivo

O livro “Pau-Brasil”, da Axis Mundi Editora relata a epopeia histórica, econômica e cultural desse primeiro ciclo da economia brasileira. Seus autores, capitaneados pelo jornalista-historiador Eduardo Bueno, apresentam a árvore que deu nome ao país como uma metáfora da nossa difícil realidade passada e presente, bem como das incertezas do nosso futuro.

Começam por explicar que o nome Brasil não deriva da palavra portuguesa “brasa” ou “braseiro”, como outrora os professores ensinavam às crianças. Sua verdadeira origem é o termo celta brésil, que significa “vermelho”. Os franceses da Normandia – que logo após o Descobrimento se tornaram os primeiros traficantes de pau-brasil para a Europa – batizaram com esse nome a preciosa madeira rubra que aqui vinham buscar. A palavra brésil difundiu-se a tal ponto que, segundo o historiador João Ribeiro (1860-1944), “Brasil” na verdade é um galicismo: o primeiro galicismo da língua ‘brasileira”.

 

O desembarque de Cabral, óleo de Oscar Pereira da Silva

O desembarque de Cabral, óleo de Oscar Pereira da Silva

Escrito por oito autores nacionais e estrangeiros – Ana Roquero, Fernando Lourenço Fernandes, Gwilym P. Lewis, Haroldo Cavalcante de Lima, Jean-Marc Montaige, Max Justo Guedes, Nivaldo Manzano, além de Eduardo Bueno, “Pau-Brasil” apresenta rica iconografia, obtida na famosa biblioteca de José Mindlin.

Detalhe do mapa 'Terra Brasilis' (Atlas Miller, 1519), já mostra o corte da madeira pau-brasil. Atualmente na Biblioteca Nacional da França

Detalhe do mapa ‘Terra Brasilis’ (Atlas Miller, 1519), já mostra o corte da madeira pau-brasil. Atualmente na Biblioteca Nacional da França



No capítulo “Pau-Brasil: uma biografia”, os botânicos Haroldo Cavalcante de Lima, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, e Gwilym P. Lewis, do Royal Botanic Gardens, de Londres, escrevem uma espécie de “árvore-genealógica” do pau-brasil. Ela nos remete às origens do processo que recobriu de florestas um planeta antes desnudo. Traçam, a seguir, uma história da floresta brasileira, onde explicam que o pau-brasil praticamente não tem parentes: trata-se de uma “espécie relictual”, ou seja, uma espécie “deixada para trás”.

 

Os melhores arcos para instrumentos de corda são feitos de pau-brasil

Os melhores arcos para instrumentos de corda são feitos de pau-brasil

 

Faltam informações precisas

Haroldo também assina o capítulo “Raízes do futuro”, epílogo do livro, onde traça as estratégias para a preservação da espécie e lança um apelo vigoroso às autoridades e a todos os brasileiros interessados não apenas no pau-brasil, mas em preservação ambiental, equilíbrio ecológico e desenvolvimento sustentável. Ele explica que os dados sobre a distribuição geográfica do pau-brasil, por exemplo, continuam espantosamente incompletos: “Em pleno século 21, simplesmente não existem informações precisas sobre a distribuição da espécie nem estimativas do tamanho das populações ou da área total de florestas com pau-brasil.” Haroldo enumera e localiza as reservas restantes dessa madeira e dos esforços que estão sendo desenvolvidos, principalmente em reservas localizadas no Nordeste, para aumentar as populações dessa árvore através de técnicas de reflorestamento. Por último, aborda uma curiosidade: com a madeira do pau-brasil são confeccionados os melhores arcos de violino do mundo, o que, devido à raridade dos exemplares remanescentes, por si só constitui grave ameaça de extinção da espécie.

 

Velho exemplar de pau-brasil no Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Velho exemplar de pau-brasil no Jardim Botânico do Rio de Janeiro

O botânico carioca Fernando Lourenço Fernandes escreveu dois capítulos do livro. No primeiro deles, “O enigma do pau-brasil”, ele desenvolve uma abordagem surpreendente. Afirma que os portugueses certamente não poderiam ter descoberto o “pau-de-tinta” no emaranhado da Mata Atlântica com aquela rapidez que lhes permitiu, menos de cinco anos após o descobrimento oficial do Brasil, já estarem enviando para a Europa 1.200 toneladas da madeira por ano, como revelam documentos da época. As pesquisas de Fernando apontam para uma tese que a cada dia ganha mais adeptos: o pré-descobrimento do Brasil. Ou seja, o estudo do chamado “ciclo do pau-brasil” fortalece a tese de que os portugueses estiveram no Brasil antes de Cabral.

 

Flores de pau-brasil

Flores de pau-brasil

No capítulo seguinte, “A feitoria da Ilha do Gato”, Fernando Fernandes procura a localização exata da primeira feitoria de pau-brasil instalada no litoral brasileiro. Mesclando argumentos geológicos, etnológicos, arqueológicos, iconográficos, hidrográficos e históricos, ele revela que a primeira feitoria portuguesa no Brasil ficava na Ilha do Gato (hoje Ilha do Governador), em meio à Baía de Guanabara. Este seria, segundo o autor, o verdadeiro lugar de nascimento da nação brasileira.

 

Em várias reservas florestais brasileiras replantam-se mudas de pau-brasil

Em várias reservas florestais brasileiras replantam-se mudas de pau-brasil

 

Uma viagem colorida

O almirante Max Justo Guedes é uma das maiores autoridades nacionais em cartografia, história e viagens exploratórias ao Brasil no século 16. É dele o capítulo “La terre du Brésil: contrabando e conquista”. Guedes examina as questões semânticas relativas ao nome Brasil e a miríade de implicações que o tráfico dessa madeira acarretou.

 

Várias tonalidades de vermelho obtidas com pigmentos do pau-brasil

Várias tonalidades de vermelho obtidas com pigmentos do pau-brasil

 

A espanhola Ana Roquero, especialista em tinturaria e moda dos séculos 16 e 17, nos convida em seu capítulo “Moda e tecnologia” a embarcar numa viagem realmente colorida. Trata-se, na verdade, de uma jornada em direção ao poder e ao significado da cor vermelha. O trajeto se inicia na mística púrpura dos fenícios e passa pelo “brasil asiático” de Marco Polo, antes de podermos vislumbrar o papel desempenhado pelo pau-brasil no mundo da moda, das finanças e da indústria têxtil européias. Suas explicações permitem entender por que o pau-de-tinta moveu tantas fortunas e tantos interesses.

 

Pintura do século 16, mostra tintureiros franceses tingindo tecidos com pigmento extraído do pau-brasil

Pintura do século 16, mostra tintureiros franceses tingindo tecidos com pigmento extraído do pau-brasil

 

O capítulo “A madeira e as moedas”, do jornalista Nivaldo Manzano, aborda sobretudo as questões econômicas relativas ao ciclo do pau-brasil. Sua análise demonstra que temas como monopólio, privatização, tributação excessiva, contrabando, pirataria, espionagem industrial, globalização, ineficiência, corrupção, reserva de mercado, concorrência desleal e dívida externa – tão presentes na realidade de hoje de nossa nação – têm sua origem num passado muito mais remoto. Surgiram e se desenvolveram a partir da própria descoberta do Brasil e da primeira espoliação nele cometida – a do pau-brasil.

 

O painel 'L'Ile du Brésil' foi esculpido no século 16 em madeira de pau-brasil e mostra a derrubada das árvores. Está no Museu de Rouen, França

O painel ‘L’Ile du Brésil’ foi esculpido no século 16 em madeira de pau-brasil e mostra a derrubada das árvores. Está no Museu de Rouen, França

Num livro sobre o pau-brasil não poderia faltar a participação de um francês. Além do mais, de um francês da Normandia, de todas as regiões francesas a que mais teve trato com o Brasil e com o tráfico de pau-brasil no primeiro século após a descoberta. Esse francês é Jean-Marc Montaigne, talvez o mais atilado e dedicado pesquisador das relações entre o Brasil e a Normandia naqueles tempos. As descobertas que ele fez e as conclusões a que chegou são surpreendentes e certamente darão origem a muita reflexão. No capítulo que assina, “O índio ganha relevo”, Jean-Marc confirma aquilo que os historiadores brasileiros já sabiam: as relações que os franceses estabeleceram com as civilizações indígenas do litoral brasileiro foram, em geral, bastante cordiais e amistosas. Ao contrário dos portugueses, que vinham para conquistar terras e nelas se estabelecer, os franceses da Normandia queriam apenas fazer bom comércio. Davam aos índios produtos como facas, anzóis, roupas – e principalmente contas de vidro e bonés enfeitados com penas de galo – e recebiam deles toneladas de pau-brasil com as quais enchiam os porões de seus navios e as levavam para a Europa. O trato era tão cordial que foram produzidos inclusive “dicionários” normando-tupi-guaranis, contendo principalmente fórmulas de cortesia. Jean-Marc descobriu vários originais desses glossários, algumas páginas dos quais são reproduzidas no livro Pau-Brasil.

 

Capítulo 'O índio ganha relevo', de Jean-Marc Montaigne, no livro 'Pau-Brasil'

Capítulo ‘O índio ganha relevo’, de Jean-Marc Montaigne, no livro ‘Pau-Brasil’

 

Influência da cultura indígena

O tráfico dessa madeira, como conta Jean-Marc, deu origem a imensas fortunas na Normandia. Até aquela época, a cor vermelha era privilégio dos reis franceses. Os pigmentos que permitiam tingir de vermelho os tecidos eram caríssimos, inacessíveis à população. Com a chegada do pau-brasil tudo mudou. Qualquer dona-de-casa podia produzir em seu fogão doméstico as tintas para tingir seus tecidos com infinitas graduações de cores rubras. O pau-brasil permitiu que alguns armadores normandos, como foi o caso de Jean Ango, por exemplo, acumulassem poder e fortuna superiores às do próprio rei.

Ao mesmo tempo – e nisso está a originalidade do trabalho de Jean-Marc Montaigne -, o contato com as culturas indígenas produziu insuspeitadas e fortes influências na mentalidade francesa e depois na da Europa como um todo. Influências não apenas restritas à moda, como foi o caso do uso de penas e plumas nos chapéus – obviamente inspirado pelos cocares e adornos indígenas -, que se tornou moda avassaladora tanto para as mulheres quanto para os homens.

 

Índios trocam toras de pau-brasil por bugigangas trazidas pelos franceses

Índios trocam toras de pau-brasil por bugigangas trazidas pelos franceses

 

Essas influências tiveram reflexos importantes na própria mentalidade e maneira de ser dos europeus. Jean-Marc observa que, naqueles tempos, o único modelo de organização social e de poder conhecido era o regime absolutista. O rei tinha direito quase de vida e morte sobre seus súditos, e pouquíssimos eram os que ousavam sequer imaginar uma situação diferente. Pois bem: muitos milhares de franceses vieram ao Brasil por causa do tráfico, marinheiros, oficiais, militares, comerciantes, gente da nobreza. No contato com nossos índios, eles se deparavam com uma organização social e com uma postura de vida completamente diferente, infinitamente mais livre e feliz. Os índios andavam nus, o governo não era exercido de forma absolutista por um único indivíduo, mas sim repartido entre o cacique, o pajé e um conselho de velhos sábios da tribo; e a relação entre homens e mulheres era muito mais igualitária do que na Europa. Ao voltar para casa, nas ruas e praças, nas tavernas, nas casernas, na própria corte, eles contavam o que tinham visto. Para resumir: segundo Jean-Marc, tudo isso exerceu enorme influência, inclusive na formação dos vários movimentos humanistas que começaram a pipocar na Europa desde então.

 

Infográfico 'A exploração ao longo dos séculos', arquivo do jornal 'O Estado de São Paulo'

Infográfico ‘A exploração ao longo dos séculos’, arquivo do jornal ‘O Estado de São Paulo’

Reflexos materiais dessas influências podem ser vistos até hoje em vários monumentos arquitetônicos normandos, casas, palácios, igrejas, decorados com relevos em pedra ou madeira onde podem ser vistos, esculpidos, índios brasileiros nas mais diversas situações. Fotos tiradas nas cidades de Rouen, Honfleur, Saint Valery e Dieppe, entre outras, são reproduzidas no livro Pau-Brasil e dão uma idéia da dimensão que o contato entre normandos e índios brasileiros assumiu naquela época. Várias famílias indígenas foram inclusive levadas nos navios para a Normandia. A maioria nunca mais voltou. Alguns índios e índias acabaram se casando com brancos normandos, produzindo descendentes que até hoje moram lá. Em Rouen e Dieppe, no verão, costumava-se organizar festas “brasileiras”, uma espécie de carnaval alegre em que boa parte da população se vestia de “índio” e saía pelas ruas a dançar. O pau-brasil foi motor de tudo isso.

 

Magnífico exemplar de pau-brasil no interior da Mata Atlântica (Bahia)

Magnífico exemplar de pau-brasil no interior da Mata Atlântica (Bahia)

 

Uma espécie sequestrada

No epílogo de Pau-Brasil, no capítulo intitulado “Raízes do futuro”, Eduardo Bueno e Haroldo Cavalcante Lima desenvolvem de modo ainda mais brilhante o significado do pau-brasil como metáfora de nossa nação. Não apenas uma metáfora econômica, mas também como um símbolo da própria identidade política, cultural e social do Brasil.

“Praticamente em nenhum instante da história do país (colônia, império e república) os brasileiros puderam ter acesso ao pau-brasil para uso prático, estudos botânicos ou desfrute estético. Trata-se de uma espécie que, de certo modo, foi ‘sequestrada’ do convívio com o povo. Ela é a imagem de uma riqueza que sempre foi nossa e nunca pôde ser nossa”, comentam os autores. Eles concluem: “Eis aqui a atualidade da metáfora: já quase desde o primeiro dia da aventura colonial até a derrubada do último pé ‘protegido’ pelo monopólio, foi-nos negada a experiência cultural do pau-brasil. Negada como espécie botânica incorporada ao nosso mobiliário e às nossas construções; como tintura ligada às nossas cores, às nossas roupas e à nossa indústria têxtil; como espécie relacionada à agronomia, à silvicultura ou à própria paisagem. O pau-brasil é, assim, a metáfora mais bem acabada, mais perfeita e mais pertinente dos recursos naturais do Brasil: o símbolo botânico da usurpação da nossa cidadania e da nossa própria omissão ao longo do processo. O pau-brasil é a metáfora vegetal do Brasil que poderia ter sido, que deveria ter sido, e que ainda não é. Até quando não o será?”

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Nascer não basta

Hoje as drogas estão consumindo nossa juventude e destruindo famílias como jamais se viu na história moderna.

O autor analisa as motivações inconscientes que hoje levam o indivíduo a recorrer ás drogas pesadas e indica que uma das principais razões disso é a ausência de processos iniciáticos verdadeiros e capazes de conferir à pessoa, particularmente ao jovem, uma real identidade existencial.

Sobre o Autor

Luigi Zoja é um italiano psicanalista e escritor. Formou-se em economia e fez uma pesquisa em sociologia durante o final dos anos 1960. Logo em seguida, ele estudou na Instituto CG Jung, em Zurique . Depois de tomar o seu diploma, Zoja voltou a Zurique para trabalhar em uma clínica por vários anos.
A maioria de seus ensaios interpretar impasses atuais (vício, consumo ilimitado, a ausência do pai, o ódio e as projeções paranóicas na política, etc.), colocando-os à luz de padrões antigos persistentes, conforme expresso no mito e literatura clássica.

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Para que serve um livro?

Rebelião dos anjos – Anatole France

Veja o que acontece quando os anjos perdem a fé no céu cristão e vêm viver na Terra, ao lado dos homens, preparando uma nova guerra contra o Poder Divino.

Reflexão profunda, ironia sutil e boas gargalhadas: eis os ingredientes desta pequena obra-prima de Anatole France, Nobel de Literatura.

Jacques Anatole François Thibault, mais conhecido como Anatole France (Paris, 16 de abril de 1844 — Saint-Cyr-sur-Loire, 12 de outubro de 1924) foi um escritor francês.

A Rebelião dos Anjos – Anatole France

Código: 9788585554033

Marca: Axis Mundi

R$ 28,00

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